
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é reconhecido como uma condição do
neurodesenvolvimento caracterizada por diferenças persistentes na comunicação social
e por padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades,
conforme descrito no DSM-5-TR (APA, 2022). Durante décadas, o conhecimento
científico sobre o autismo foi construído predominantemente a partir de amostras
masculinas, o que contribuiu para uma compreensão limitada das manifestações no sexo
feminino.
Nos últimos anos, a literatura tem evidenciado que meninas no espectro frequentemente
apresentam perfis comportamentais distintos, mais sutis e socialmente compensados, o
que pode levar a subdiagnóstico, diagnóstico tardio ou classificações equivocadas.
Introdução
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é classificado, segundo o DSM-5-TR
(American Psychiatric Association, 2022), como um transtorno do
neurodesenvolvimento caracterizado por déficits persistentes na comunicação social e
padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades.
Historicamente, o autismo foi descrito e estudado majoritariamente em meninos. A
proporção diagnóstica tradicionalmente apresentada é de aproximadamente 4:1
(meninos para meninas). No entanto, pesquisas contemporâneas sugerem que essa
diferença pode estar parcialmente relacionada a subidentificação no sexo feminino, e
não apenas a fatores biológicos (Loomes, Hull & Mandy, 2017).
Nas últimas duas décadas, a literatura científica passou a discutir o chamado “fenótipo
feminino do autismo”, trazendo evidências de que meninas no espectro podem
apresentar manifestações clínicas distintas, mais sutis, internalizadas e frequentemente
mascaradas por estratégias compensatórias.
O Fenótipo Feminino no TEA
Estudos conduzidos por Francesca Happé, Tony Attwood e William Mandy apontam
que meninas com TEA tendem a:
● Demonstrar maior capacidade de imitação social;
● Desenvolver estratégias conscientes de adaptação;
● Apresentar interesses restritos socialmente mais aceitos (ex.: literatura, animais,
celebridades, personagens);
● Exibir menos comportamentos externalizantes disruptivos na infância.
Autismo em Meninas: Invisibilidade Diagnóstica,
Dados Brasileiros e Implicações Clínicas
Essas características podem reduzir a percepção de sinais clássicos associados ao
autismo.
Segundo Mandy et al. (2012), meninas com TEA frequentemente apresentam maior
habilidade superficial de reciprocidade social, o que pode levar profissionais e escolas a
interpretarem suas dificuldades como timidez, sensibilidade excessiva ou ansiedade
social, atrasando a investigação diagnóstica.
Camuflagem Social (Masking): O Custo Invisível
Um dos conceitos centrais nas pesquisas atuais é o de camuflagem social.
Hull et al. (2017) definem camuflagem como o conjunto de estratégias utilizadas por
pessoas autistas para esconder ou compensar dificuldades sociais, incluindo:
● Copiar expressões faciais e padrões de fala;
● Ensaiar respostas sociais previamente;
● Forçar contato visual;
● Suprimir estereotipias em ambientes públicos.
Embora essas estratégias possam facilitar a adaptação momentânea, elas geram alto
custo cognitivo e emocional. Pesquisas indicam correlação entre camuflagem
prolongada e maiores índices de:
● Ansiedade;
● Depressão;
● Exaustão social;
● Ideação suicida na adolescência e vida adulta (Cassidy et al., 2018).
Ou seja, a ausência de sinais disruptivos não significa ausência de sofrimento.
Desenvolvimento Assíncrono e Internalização
Meninas no espectro também podem apresentar desenvolvimento assíncrono, com:
● Linguagem aparentemente preservada;
● Bom desempenho acadêmico inicial;
Autismo em Meninas: Invisibilidade Diagnóstica,
Dados Brasileiros e Implicações Clínicas
● Elevada sensibilidade sensorial;
izantes (agressividade, oposição), podem surgir quadros internalizantes, como:
● Crises emocionais em ambiente doméstico;
● Isolamento social progressivo;
● Perfeccionismo rígido;
● Autoexigência intensa.
Essa internalização contribui para diagnósticos tardios, muitas vezes somente na
adolescência ou idade adulta.
Dados do Autismo no Brasil: o que a epidemiologia mostra
sobre meninas e diferenças de gênero
Até recentemente, o Brasil não dispunha de números oficiais sobre a prevalência do
Transtorno do Espectro Autista (TEA). Em 2025, o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) divulgou os primeiros dados viabilizados pelo Censo Demográfico
2022, trazendo informações inéditas sobre diagnósticos de autismo no país.
Segundo esse levantamento:
● Aproximadamente 2,4 milhões de brasileiros foram identificados com
diagnóstico de TEA feito por um profissional de saúde, o que corresponde a
cerca de 1,2% da população nacional.
● A prevalência é maior entre homens (1,5%) do que entre mulheres (0,9%),
mantendo o padrão observado internacionalmente.
● Na faixa etária de 5 a 9 anos, a maior taxa de diagnóstico foi registrada: 2,6% da
população dessa idade.
● Nesta mesma faixa, 3,8% dos meninos foram diagnosticados, enquanto entre as
meninas o percentual foi de 1,3% — ou seja, aproximadamente 3 meninos
diagnosticados para cada 1 menina.
Esses dados confirmam que, no Brasil, assim como em outros países, há uma diferença
de prevalência de TEA entre os sexos. Entretanto, a discrepância não deve ser
interpretada apenas como uma maior predisposição biológica masculina ao autismo.
Pesquisas internacionais e revisões sistemáticas indicam que muitas meninas no
espectro acabam sendo diagnosticadas mais tardiamente ou sequer chegam a receber
diagnóstico formal, justamente por apresentarem características mais sutis ou
internalizadas, como maior uso de estratégias de adaptação social ou camuflagem.
Autismo em Meninas: Invisibilidade Diagnóstica,
Dados Brasileiros e Implicações Clínicas
Implicações para Avaliação Clínica
A literatura recomenda que a avaliação de meninas com suspeita de TEA inclua:
- Entrevista desenvolvimental detalhada;
- Observação em múltiplos contextos;
- Investigação de esforço social excessivo;
- Análise qualitativa da reciprocidade social (não apenas frequência de interação);
- Triagem para ansiedade e depressão associadas.
Instrumentos padronizados são importantes, mas podem não captar integralmente
nuances do fenótipo feminino, exigindo avaliação clínica especializada e
contextualizada.
Intervenção Baseada em Evidências
A intervenção precoce continua sendo o principal preditor de melhores desfechos
funcionais (Dawson et al., 2010).
Para meninas no espectro, intervenções devem considerar:
● Desenvolvimento de habilidades sociais funcionais;
● Educação emocional estruturada;
● Redução de camuflagem prejudicial;
● Estratégias de autorregulação;
● Apoio psicossocial na adolescência.
Abordagens baseadas na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), Terapia
Cognitivo-Comportamental adaptada para TEA e programas de Treinamento de
Habilidades Sociais apresentam evidências consistentes quando aplicadas de forma
individualizada.
Autismo em Meninas: Invisibilidade Diagnóstica,
Dados Brasileiros e Implicações Clínicas
Referências
American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental
Disorders – DSM-5-TR.
Hull, L., Petrides, K. V., Allison, C., et al. (2017). “Putting on My Best Normal”: Social
camouflaging in adults with autism spectrum conditions. Journal of Autism and
Developmental Disorders.
IBGE. (2025). Censo Demográfico 2022: Pessoas diagnosticadas com Transtorno do
Espectro Autista no Brasil.
Lai, M. C., Lombardo, M. V., & Baron-Cohen, S. (2015). Sex/gender differences and
autism: Setting the scene for future research. Journal of the American Academy of Child
& Adolescent Psychiatry.
Loomes, R., Hull, L., & Mandy, W. (2017). What is the male-to-female ratio in autism
spectrum disorder? A systematic review and meta-analysis. Journal of the American
Academy of Child & Adolescent Psychiatry.



